Opinião

50 anos de Autonomia a janela que se abriu ao futuro

Sou do tempo da tabuada aprendida à moda antiga, muitas vezes acompanhada pela régua sobre a mão estendida. Do tempo em que um chocolate era um luxo reservado a dezembro, quando se faziam as contas da Albacora. Era uma vida mais simples, mas também mais limitada. Sou igualmente do tempo do início da Autonomia dos Açores e das profundas transformações que ela trouxe à nossa terra e à vida de toda uma geração.

Ao celebrarmos 50 anos da Autonomia, é impossível não reconhecer o caminho percorrido. Com defeitos e virtudes, como qualquer obra humana, a verdade é que a Autonomia abriu uma janela de oportunidades aos jovens daquela época. Permitiu-nos olhar mais longe, conhecer novas realidades e perceber que o mundo não terminava no mar que rodeava a nossa ilha.

A Autonomia não representou apenas uma mudança política ou administrativa. Foi um factor de esperança e desenvolvimento. Permitiu aos açorianos participar mais diretamente nas decisões sobre o seu futuro, investindo em áreas fundamentais como a saúde, a educação, o desporto, a cultura, os transportes e a coesão entre as ilhas.

Lembro-me bem desse período. O desporto fazia parte do nosso quotidiano, numa época em que a rádio era a principal companhia e havia poucos televisores. As brincadeiras preenchiam os dias e as amizades construíam-se nas ruas e nos espaços de convívio das nossas comunidades.

Foi nesse contexto que a Autonomia começou a aproximar os açorianos de uma forma nunca antes vista. Em 1984, participei em São Jorge no primeiro torneio regional de voleibol. Para muitos de nós, aquela viagem foi muito mais do que uma competição: foi uma descoberta. Foi a oportunidade de conhecer outras ilhas, outras realidades e outros jovens que, apesar das distâncias, partilhavam os mesmos sonhos e ambições.

Ainda hoje recordo aqueles rostos, aqueles sorrisos e a alegria de estarmos juntos. O voleibol foi apenas o pretexto. O verdadeiro acontecimento foi o encontro entre jovens açorianos que começaram a conhecer-se, a criar laços e a sentir que pertenciam a uma mesma comunidade espalhada por nove ilhas.

Essa é, talvez, uma das maiores conquistas da Autonomia: ter unido os açorianos. Ter permitido que os jovens saíssem da realidade limitada da sua ilha para descobrirem a riqueza do arquipélago, criando oportunidades de mobilidade, intercâmbio e partilha.

Ao longo destes cinquenta anos, os Açores cresceram em infraestruturas, educação, saúde e desenvolvimento económico. Mas o maior legado da Autonomia não está apenas nas obras realizadas. Está nas pessoas e na confiança que deu a uma geração inteira para sonhar e acreditar que era possível construir o seu futuro nos Açores.

Cinquenta anos depois, é justo homenagear todos os que tiveram a visão e a coragem de construir a Autonomia. Porque ela abriu horizontes, aproximou ilhas, uniu pessoas e deu aos açorianos a possibilidade de serem protagonistas do seu próprio destino. Esse continua a ser o seu maior legado e a melhor razão para a celebrar.